terça-feira, novembro 09, 2004

Há 15 anos, onde eu não estava

Já tinha escurecido, eu lia atentamente um problema de Física que era preciso decifrar para o dia seguinte. Estava frio, mas ainda não nevava. A vida é um lugar sempre à espera do frio. A pouco e pouco, o sentido desvendado de um enigma imperfeito. O Daniel aparece e grita histericamente do lado de fora
a fronteira, a fronteira
mas está frio e eu não quero abrir a janela. Mando-o dar a volta, entrar-me em casa pela porta da frente, que é o único caminho para as notícias que se podem pronunciar
a fronteira, a fronteira
continua ele, sem controlo
e eu a pensar, sim, também ele vai partir, queres ver
a fronteira está aberta!
exclama finalmente, quando se acalma, enquanto desenrola do pescoço um cachecol feito pela avó, igualzinho ao meu
claro que está, se quiseres ir até à Checoslováquia...
não! a fronteira, a fronteira para o ocidente, o muro, caiu, caiu tudo, está tudo aberto, podemos sair!
o cepticismo apoderando-se de mim,
tens a certeza?
mas todos tinham a certeza, aquela certeza estranha de quem recua e já não vive, só observa. Que estranho, o dia continuou a escurecer, o frio instalou-se durante a noite, o bosque da Turíngia recobria ainda a superfície secreta de bases militares, a manhã nasceu sem mais
vamos a Neustadt?
na mota?
sim, hoje à noite, vamos a Neustadt
fomos a Neustadt à noite, subimos a colina e passámos a torre de controlo, Neustadt pacífica, pachorrentamente a dedilhar as horas mortas de um dia de semana. Sei hoje que era então uma cidade provinciana, a 30 Km da fronteira não podia ser outra coisa, mas para nós era um outro mundo, tudo era extraordinário, bebemos uma coca-cola
vocês vêm de onde?
de Meiningen
à espera de mais perguntas, de mais curiosidade, mas nada, o nosso entusiasmo era solitário, na televisão víamos Berlim em êxtase, o fim de uma esquizofrenia dilacerante, a poesia da história reencontrada, uma esperança que se fazia da alegria mútua, menos naquele bar, no meio do nada, onde a visão de dois miúdos de leste era apenas uma novidade subsumível em qualquer fait-divers de uma noite de semana
gostas?
não, nada. e tu?
sim, também não gosto
voltámos na mesma noite, subindo a colina que nos levaria de novo ao posto de controlo. Não tínhamos então, como durante algum tempo, a certeza de poder voltar a atravessá-lo. E teríamos a vontade?

1 Comments:

Blogger César de Oliveira said...

a madrugada que esperavam
o dia inicial inteiro e limpo

2:35 da tarde  

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