quinta-feira, abril 29, 2004

Rattle Sneak



Pronto. O João perguntou e eu tenho mesmo que falar disto, embora falhem as palavras, quando se quer falar de uma experiência rattlesneak! Há qualquer coisa de mágico que acontece. Eu explico - o melhor possível.
Tudo começa com a pesca dos bilhetes. Não há bilhetes para assistir ao Rattle. É chegar às bilheteiras no dia em que abrem para os concertos seguintes e ter tudo já esgotado, excepto um ou outro lugar impossível. Os concertos na Filarmónica podem custar barbaridades... A única hipótese é ir para a porta e esperar que, nos bilhetes de última hora que são vendidos a preços razoáveis a estudantes, haja uma sobra para a nossa vez. Entretanto, o apetite cresce...
Segue-se a experiência do edifício em si. A Filarmónica fica junto à Potsdamer Platz, com vista para a Neue National Gallerie, da autoria de Mies van der Rohe. O formato irregular do exterior, corresponde a alguma perda no interior, enorme, gigante, como se se entrasse numa caixa de música, precisamente onde ela ressoa.
O tempo passa. A ansiedade é enorme. As pessoas acumulam-se nos corredores, nas escadas, há um bruá contínuo, uma excitação no ar, como se todos fôssemos entrar numa cerimónia única e decisiva para as nossas vidas.
O Simon Rattle (Sir) é um senhor que me passaria despercebido na rua, não fossem os caracóis vivos que traz em catadupas. Parece desengonçado. Quase envergonhado. Tem um sorriso infantil que desconcerta. Volta-se de costas e transfigura-se.
Começa a magia.
A Orquestra Filarmónica, carinhosamente apelidada de "Phil", deixa-se conduzir por esta figura, precisa, sem excessos, que arranca das vozes, dos intrumentos, dos intérpretes, uma musicalidade cheia de cor, um tempo impossível para os instrumentos, um acontecimento brutal.
O silêncio é um choque. Ouvi Beethoven e Brahms, não sei que ouvi. Não era Beethoven, não era Brahms. Foi qualquer coisa de muito especial, que não é possível esquecer.
No final, depois dos aplausos loucos, furiosos, do êxtase da orquestra, do público completamente rendido, reina um silêncio sepulcral, porque todos queremos dali que a magia não acabe.


Eu tive a sorte de entrar pela "porta do cavalo", sneak sneak, duas horas de espera e chão para me sentar, porque não havia um único lugar livre. Bendita vizinha violinista...


Dr. Jay's